Quem escreveu a Bíblia? O que se sabe e o que é tradição

Quem escreveu a Bíblia não tem uma resposta de um nome só. A Bíblia teve muitos autores, ao longo de muitos séculos, e muitos livros não trazem no texto o nome de quem os escreveu. A Bíblia é uma biblioteca, e você vê quantos livros ela tem em cada tradição no guia quantos livros tem a Bíblia.
Para responder com cuidado, vale separar três coisas: o que o próprio texto diz, o que cada tradição atribui e o que os estudiosos discutem hoje. Este guia segue essa ordem, sem dizer a ninguém em que acreditar.
O que a própria Bíblia diz sobre quem escreveu?
Alguns livros contam, no próprio texto, que alguém escreveu. Em Êxodo 24:4, Moisés escreve as palavras do Senhor. No livro de Jeremias, o profeta dita e Baruque escreve num rolo.
Então Jeremias chamou a Baruque, filho de Nerias; e Baruque escreveu da boca de Jeremias, em um rolo de livro, todas as palavras que o SENHOR havia lhe falado.
As cartas de Paulo mostram a mesma divisão entre quem fala e quem escreve. No fim da carta aos Romanos, quem segurou a pena se apresenta com o próprio nome.
Eu, Tércio, que escrevi esta carta, vos saúdo no Senhor.
Em outras cartas, Paulo diz que escreve uma parte com a própria mão, como em Gálatas 6:11 e 2 Tessalonicenses 3:17. Ou seja: o texto mostra que uma carta podia ter um autor que falava e outra pessoa que escrevia.
O Evangelho de Lucas abre com quem o escreveu contando como trabalhou. Outras pessoas já tinham posto a história em ordem, e ele diz que se informou desde o princípio antes de escrever para Teófilo.
1Como muitos empreenderam pôr em ordem o relato das coisas que entre nós se cumpriram, 2conforme os que as viram que desde o princípio, e foram servidores das palavra, nos transmitiram, 3pareceu-me bom que também eu, que tenho me informado com exatidão desde o princípio, escrevesse-as em ordem a ti, caríssimo Teófilo,
Repare que esse começo não traz um nome. O Evangelho de João também termina falando de um discípulo que testemunhou e escreveu (João 21:24), sem dizer o nome dele naquele versículo. E a carta aos Hebreus não tem saudação no começo e não diz quem a escreveu.
Nesses trechos do Novo Testamento, o verbo é sempre o mesmo. A ficha abaixo mostra a palavra grega para escrever, o que ela quer dizer e quantas vezes aparece:
escrever
Aparece 200 vezes na Bíblia
Quem escreveu o Antigo Testamento, segundo a tradição judaica?
Uma lista conhecida de autores está no Talmude Babilônico, no tratado Bava Batra, folhas 14b e 15a. Ela faz a pergunta de quem escreveu os livros da Bíblia e responde livro por livro:
- Moisés: a Torá, o trecho de Balaão e o livro de Jó.
- Josué: o livro que leva o nome dele e os oito versículos da Torá que contam a morte de Moisés.
- Samuel: o livro dele, Juízes e Rute.
- Davi: os Salmos, numa coleção que reuniu também textos de dez anciãos.
- Jeremias: o livro dele, Reis e Lamentações.
- Ezequias e os seus companheiros: Isaías, Provérbios, Cântico dos Cânticos e Eclesiastes.
- A Grande Assembleia: Ezequiel, os Doze Profetas, Daniel e Ester.
- Esdras: o livro dele e as genealogias de Crônicas até a época dele.
O próprio Talmude discute esses pontos. Sobre o fim da Torá, ele pergunta como Moisés poderia ter escrito sobre a própria morte depois de morrer.
A lista vem da tradição, não do texto. A Torá, por exemplo, não diz em lugar nenhum que foi escrita inteira por Moisés, como lembra Christine Hayes nas aulas de Antigo Testamento da Universidade Yale. Contamos essa discussão com mais detalhes no artigo quem foi Moisés na Bíblia.
Quem escreveu o Novo Testamento?
Para os evangelhos, os nomes de Mateus, Marcos, Lucas e João vêm da tradição antiga. Ireneu de Lyon, em Contra as Heresias, escreveu que Mateus publicou um evangelho entre os hebreus, na língua deles. Segundo ele, Marcos, discípulo e intérprete de Pedro, pôs por escrito o que Pedro pregava, Lucas, companheiro de Paulo, registrou o evangelho que Paulo pregava, e João, o discípulo do Senhor, publicou o seu em Éfeso.
Papias, bispo de Hierápolis, também ligava o Evangelho de Marcos à pregação de Pedro, segundo a História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia. As notas de estudo da Tyndale, uma obra evangélica, registram a mesma ligação entre Marcos e Pedro.
As cartas de Paulo são diferentes: elas trazem o nome dele logo na primeira linha, como em Romanos 1:1. São 13 cartas com o nome de Paulo. Outras sete cartas levam, na lista de Atanásio, os nomes de Tiago, Pedro, João e Judas. As três de João, porém, não trazem esse nome no próprio texto, e a segunda e a terceira começam com o autor chamado de ancião (2 João 1:1 e 3 João 1:1).
A carta aos Hebreus é o caso mais conhecido de livro sem autor declarado. Eusébio registra uma frase sobre ela: quem escreveu a carta, na verdade, Deus sabe. Uns apontavam Clemente, bispo de Roma, e outros, Lucas, o autor do evangelho e de Atos.
O que os estudiosos discutem hoje?
Na pesquisa acadêmica, a pergunta muda de forma. Em vez de confirmar um nome, ela olha para o estilo, a língua e as preocupações de cada texto.
Christine Hayes resume que a Bíblia teve muitos colaboradores, ao longo de muitos séculos, e que o estilo e as preocupações de cada um aparecem no texto. Para a Torá, ela apresenta a hipótese documentária, que tenta explicar repetições, contradições e anacronismos por meio de documentos de origem que não temos. E insiste que é só uma hipótese, importante, mas não livre de críticas.
No Novo Testamento, Dale B. Martin, também de Yale, explica que, para os estudiosos modernos, os quatro evangelhos foram publicados sem o nome do autor. Segundo ele, os manuscritos mais antigos não traziam os títulos que hoje abrem cada evangelho.
Sobre Paulo, Martin separa sete cartas que a maioria dos estudiosos aceita como dele: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filemom. As outras seis estão em discussão, e três delas a maioria dos estudiosos não atribui a Paulo.
Obras evangélicas registram essa visão e respondem a ela. As notas de estudo da Tyndale reconhecem que é comum a ideia de que 1 e 2 Timóteo e Tito não foram escritas por Paulo, e afirmam que é razoável manter a autoria dele.
O mesmo tipo de debate aparece em outros livros. As notas da Tyndale lembram que a data em que o livro de Daniel chegou à forma final é discutida sem fim, e o resumo do livro de Daniel mostra cada lado.
Se foram pessoas, por que se diz que Deus é o autor?
Para quem tem fé, as duas respostas não precisam brigar. A segunda carta a Timóteo fala da Escritura como divinamente inspirada.
Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para mostrar erros, para corrigir, e para instruir na justiça;
Na Igreja Católica, a constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, diz que os livros têm Deus por autor. O mesmo documento diz que Deus escolheu homens que escreveram como verdadeiros autores.
Obras evangélicas dizem algo parecido. O dicionário bíblico da Tyndale descreve as Escrituras como resultado de uma cooperação divina e humana, e a Bíblia como plenamente divina e plenamente humana.
Para quem lê por curiosidade, o lado humano é o que dá para estudar com as ferramentas de qualquer leitor: a língua, a época e o jeito de escrever de cada livro. A leitura de quem crê e a de quem pesquisa podem caminhar juntas sobre o mesmo texto.
Quantas pessoas escreveram a Bíblia?
Não há uma conta exata. O número depende de aceitar ou não cada atribuição da tradição, e de como contar os livros sem nome de autor, os secretários, como Tércio, e quem reuniu coleções, como a dos Salmos.
Por isso, um número redondo de autores só vale junto com a regra usada para contar. Quando você encontrar um, pergunte de onde ele veio e quais atribuições ele aceita.
Como ler sabendo quem escreveu cada livro?
Saber quem escreveu, ou a quem o livro é atribuído, muda a leitura. Uma carta de Paulo responde a pessoas reais, e as saudações no fim de Romanos 16 dão nome a muitas delas. O Evangelho de Lucas diz, logo no começo, que foi escrito para Teófilo.
Antes de começar um livro, leia a apresentação dele e procure três coisas: quem fala, para quem e em que situação. Depois, leia o texto inteiro com calma. As dúvidas sobre autoria podem ficar anotadas, e muitas delas continuam abertas também entre os estudiosos.
Se quiser seguir por esse caminho, monte um plano no seu ritmo e leia um livro de cada vez, com a apresentação ao lado. Outras perguntas sobre a Bíblia estão reunidas em dúvidas.
Perguntas frequentes
A Bíblia foi escrita por uma pessoa só?
Não. A Bíblia reúne livros de muitas pessoas, que viveram em épocas diferentes. Alguns livros trazem o nome de quem escreveu, como as cartas de Paulo, e outros não dizem quem os escreveu, como a carta aos Hebreus.
Quem escreveu os cinco primeiros livros da Bíblia?
O Talmude e a tradição cristã atribuem a Torá a Moisés. O texto diz que Moisés escreveu algumas partes, como em Êxodo 24:4, mas não diz que ele escreveu os cinco livros inteiros, e os estudiosos discutem como esses livros se formaram.
Quem escreveu os evangelhos?
Ireneu de Lyon, em Contra as Heresias, atribui os quatro evangelhos a Mateus, Marcos, Lucas e João. Para muitos estudiosos, os evangelhos circularam sem o nome do autor, e os títulos vieram depois.
Se pessoas escreveram a Bíblia, ela deixa de ser Palavra de Deus?
Para a Igreja Católica, a Dei Verbum diz que Deus escolheu pessoas que escreveram como verdadeiros autores. Obras evangélicas falam de uma cooperação divina e humana. Quem não tem fé pode ler os mesmos livros pelo lado histórico.
Fontes
- Christine Hayes, aulas de Yale sobre o Antigo Testamento: Aula 1; Aula 5
- Talmude Babilônico, Bava Batra: Bava Batra 14b; Bava Batra 15a
- Catholic Encyclopedia (1907 a 1912): Artigo Pentateuch, seção Mosaic authenticity; artigo Canon of the New Testament
- Dale B. Martin, aulas de Yale sobre o Novo Testamento: Aula 2; Aula 14
- Tyndale Open Bible Dictionary: Artigo Hebrews, Letter to the; Artigo Bible, Inspiration of the
- Ireneu, Contra as Heresias: Livro 3, cap. 1
- Eusébio, História Eclesiástica: Livro 3, cap. 36; Livro 3, cap. 39; Livro 6, cap. 25
- Tyndale Open Study Notes: Introdução a Mateus; Introdução a 1 Timóteo; seção Authorship and Date
- Atanásio, Carta Festal 39: Carta 39, § 5
- Concílio Vaticano II, Dei Verbum: n. 11
Os versículos citados vêm da Bíblia Livre e, nos deuterocanônicos, da Bíblia Portuguesa Mundial. Sobre o texto e os dados.


